FGV – julho 1994

Terceirização em Informática

Por Prof. Jaci C. Leite


Um profundo e exaustivo texto sobre terceirização em informática.Texto produzido para a diciplina Direção Estratégica de Tecnologia de Informação GV/PEC da Escola de Administração de Empresas de São Paulo – FGV

 


Introdução

Se você está à procura de uma fórmula que lhe garanta o sucesso na terceirização em informática, desista. Não tente se iludir, pois não existe "receita de bolo" que se aplique a um assunto assim tão complexo.

Terceirizar serviços em sistemas informações não é o mesmo que terceirizar serviços de faxina ... mas geralmente este "pequeno detalhe" só é descoberto depois que o estrago já está feito e o retorno é dificil, senão impossível.

Este texto é parte integrante do Curso de Direção Estratégica de Tecnologia de Informação, do GV/PEC. Foi preparado como complemento da apresentação em aula e focaliza especificamente a terceirização em informática, um assunto complexo por natureza e, ainda hoje, pouco estudado na realidade brasileira.

Trata-se de um material bastante condensado. Procurou-se abordar, ainda que superficialmente, todos aspectos essenciais para que a terceirização nessa área específica não se transforme num pesadelo que assola executivos e usuários.

Antes, buscam-se as condições para que ela possa ser de fato um instrumento de gestão, auxiliando na busca da competitividade.

Se você está à procura de uma fórmula que lhe garanta o sucesso na terceirização em informática, desista. Não tente se iludir, pois não existe "receita de bolo" que se aplique a um assunto assim tão complexo.

Não se pretende a solução fácil e simplista de apresentar remédios milagrosos, modelos infalíveis ou roteiros predefinidos. Antes, aborda-se o assunto pela ótica de sua realidade multifacetada, cheia de nuances e inerentemente complexa. A análise se faz por etapas, partindo da conceituação de terceirização e passando aos motivos que levam uma empresa a terceirizar, no todo ou em parte, sua informática. A seguir são tratados os aspectos ligados ao planejamento desse processo. O próximo passo é a sua implementação. A etapa subseqüente é a gestão do processo depois de implementado.

Especial atenção é dada às armadilhas mais freqüentes em cada passo dessa empreitada, mencionando-se alguns cuidados básicos para evitá-las. Mas esta abordagem, embora prática, evita cair no lugar comum de oferecer um produto enlatado e supostamente pronto para ser usado em qualquer circunstância.

2. Terceirização: uma visão geralNo final dos anos 80 apareceu no Brasil um neologismo que logo se firmou como uma das palavras da moda: terceirização. A expressão foi criada pela empresa gaúcha Riocell e corresponde a uma tradução livre da expressão em inglês outsourcing O significado de ambas é o mesmo: trata-se da transferência, para terceiros, de parte das atividades de uma empresa.

Pode parecer novidade, mas não é. O conceito de transferir para fora da empresa uma parte de seu processo produtivo já era uma idéia antiga e consolidou-se durante a Segunda Guerra Mundial, quando as indústrias de armamentos passaram a buscar parceiros fora como forma de aumentar sua capacidade de produzir maior quantidade de material bélico.

No Brasil, a indústria automobilística é dominada pelas chamadas montadoras, empresas multinacionais que, desde sua instalação, vêm empregando largamente a terceirização em peças e componentes adquiridos de centenas de fomecedores contratados principalmente junto ao mercado local.

Um outro tipo de serviço que já há muitos anos vem sendo terceirizado é a contabilização: praticamente todas as pequenas empresas lançam mão de um escritório de contabilidade ou, como se dizia antigamente, de um guarda-livros, para cuidar de sua escrituração e zelar pelo atendimento às exigências do fisco.

Porém, embora o conceito em si não seja exatamente novidade, tem-se observado, nos últimos anos, um forte movimento em direção à terceirização

dos mais diversos serviços. Este fenômeno ocorre em âmbito mundial e é causado, sobretudo, pela grande mudança estrutural no ambiente de negócios.

2.1. Por que se terceiriza?

Basicamente, a resposta para esta questão é muito simples: terceiriza-se alguma atividade porque, qualquer que seja o motivo, não compensa fazê-la internamente.

As empresas em geral passam diariamente por decisões quanto ao que se deve fazer ou não fazer internamente. Durante muitos anos, a tendência predominante nas empresas foi no sentido de anexar cada vez mais processos correlatos, aglutinados em torno das atividades produtivas básicas. Com isto, as estruturas passaram a ser um aglomerado de áreas um tanto desconexas como jardinagem e usinagem. O resultado mais evidente era a dispersão de esforços, pois a empresa precisava se preocupar com tantas coisas que não havia energia suficiente para dar a devida atenção às questões realmente relevantes.

Mais recentemente, começou ficar claro que não é possível para uma única empresa ser excelente em todas as atividades. Não há como ser eficiente em tudo: ou ela dedica o melhor de si àquilo que realmente interessa, ou divide seu tempo entre as atividades centrais e as periféricas.

Na verdade, passou a haver uma maior conscientização quanto à necessidade de especialização e as empresas começaram a praticar a terceirização em busca dos efeitos que esperam alcançar com tal processo.

2.2. Efeitos da terceirizaçãoExistem três efeitos principais que as empresas buscam quando praticam a terceirização:

Ao terceirizar atividades acessórias, a empresa passa a dedicar todos os esforços naquilo que é o cerne de seu negócio. Por ter estruturas mais leves e mais enxutas, a empresa tende a desobstruir principalmente seu processo decisório, ganhando uma agilidade que logo se transforma em maior competitividade em relação à concorrência.

2.3. O que se terceiriza e o que não se terceiriza

A empresa não deve terceirizar indiscriminadamente suas atividades intemas.

Claramente, algumas coisas devem ser repassadas para terceiros, pois dificilmente será compensador fazê-las intemamente. No outro extremo, há atividades que ninguém pensa em terceirizar. E, no meio deste contínuo, existe uma área cinzenta que precisa ser olhada com maior cuidado.

Basicamente, são candidatas naturais à terceirização todas as atividades que se encaixem nas seguintes características:

Por outro, dois fatores são os principais condicionantes que sugerem que uma atividade não deva ser terceirizada. Encaixa-se neste grupo não terceirizável tudo aquilo que realmente diferencie a empresa de seus concorrentes, ou que envolva riscos excessivos caso esteja em mãos de terceiros. Dentre os principais itens que não devem ser terceirizados, destacam-se:

2.4. Cuidados básicos no processoTerceirizar atividades acessórias, como se viu anteriormente, pode trazer beneficios concretos para a empresa contratante. Entretanto, para a terceirização de qualquer atividade não se transforme num verdadeiro pesadelo, existem três pontos que merecem um cuidado todo especial:

3. Informática: um caso especial

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, a terceirização em informática não deve ser feita segundo os mesmos critérios adotados para terceirizar outros serviços. Somente para citar alguns dos aspectos mais evidentes: primeiro, a complexidade técnica; segundo, os riscos envolvidos; e terceiro, a penetração capilar dos sistemas de informação em praticamente todas as áreas da empresa.

Isto tudo faz com que terceirizar nesta área seja um assunto delicado. Mas, nem por isso, deve ser deixada de lado. Pelo contrário, existe um grande beneficio potencial nesta terceirização, seja ela total ou parcial.

3.1. Terceirizar informática não é trivialQuando uma empresa resolve terceirizar simultaneamente a vigilância, o restaurante, a jardinagem e o transporte de funcionários, ela provavelmente escolherá empresas diferentes para fazer estes quatro serviços. Pode ser mesmo que algumas destas atividades, como por exemplo o transporte de empregados, tenham vários prestadores de serviços atuando simultaneamente.

Se tiver problemas com algum deles, o impacto em relação aos demais provavelmente será mínimo. Por exemplo, se houver um problema com a empresa de vigilância, todos os outros três serviços continuarão normalmente, como se nada tivesse ocorrido.

Quando porém se fala em informática, o quadro muda radicalmente. Se a empresa tercebiza a comunicação de dados com uma empresa e a manutenção

de hardware com outra, podem ocorrer problemas cuja responsabilidade não fique clara.

A terceirização em informática tem pelo menos quatro aspectos que introduzem complicadores adicionais em relação à terceirização de outras atividades:

Tais complicadores não implicam em desistir da terceirização. Pelo contrário, ele pode ser levada adiante, mas os cuidados a serem tomados neste processo são completamente diferentes daqueles observados na terceirização de outras atividades da empresa.

3.2. Quatro questões básicasAntes de se lançar à aventura de terceirizar em informática, existem algumas questões que devem ser feitas para reflexão e avaliação dos beneficios e riscos do processo. Tal questionamento não fornecerá uma resposta clara e acabada

sobre o que deve ou não deve ser feito, mas com certeza lançará alguma luz sobre tal decisão.

As quatro questões mais importantes a fazer antes de se iniciar o processo de terceirização em informática são:

Nenhuma das questões anteriores dará, por si só, um veredito definitivo quanto ao que deve ser feito. Mas ao se formar o quadro com o conjunto das respostas, ficam mais fáceis as decisões sobre terceirizar ou não e em que nível isto deve ser feito.

3.3. Riscos inerentes ao processoA terceirização de qualquer atividade traz consigo alguns riscos, que são, por assim dizer, o "preço" que se paga pelos beneficios alcançados.

Particularmente no caso de informática, existem três variáveis de risco que devem ser consideradas:

Da forma como foi exposto, pode até parecer que não há solução e que o melhor mesmo é esquecer a terceirização. Mas isto não é verdade. De fato, há muitos casos bem-sucedidos, em que o resultado líquido final é fortemente positivo, com os beneficios superando de longe os problemas.

O que determina o sucesso da empreitada é a seriedade e competência não só do prestador de serviços, mas também da empresa que terceiriza. Uma relação madura e profissional, em que cada parte cumpre seu papel com dedicação e honestidade, é a maior garantia de bons resultados na terceirização em informática.

3.4. implicações de curto e de longo prazoAo terceirizar em informática, a empresa precisa tomar algumas decisões e pôr em prática algumas ações:

3.5. O que se terceiriza em informáticaComo regra geral, quanto mais padronizados forem os produtos de uma atividade, maior será a conveniência de terceirizá-la, pois é provável que a empresa contratante jamais conseguirá alcançar uma relação custo/beneficio tão favorável quanto a apresentada pelo prestador de serviços. Ou seja, quanto mais o serviço se aproxima de uma commodity, maiores serão as vantagens e menores serão os riscos em terceirizá-lo.

Particularmente no caso de aplicações que, além de padronizadas, são sujeitas a muita normalização por força de lei, o prestador de serviços provavelmente terá sempre uma solução mais eficiente e mais eficaz. Exemplos típicos desta situação são folha de pagamento, controles patrimoniais, contabilidade fiscal e assim por diante. Nestes casos, o mínimo que a empresa pode fazer é terceirizar pelo menos o desenvolvimento e manutenção de aplicativos, comprando de terceiros o pacote pronto. Eventualmente pode ser interessante até mesmo a execução do serviço ser feita por terceiros.

Algumas condições representam situações favoráveis à terceirização:

Dentre os serviços passíveis de serem terceirizados, podem ser citados:

4. Fatores críticos na terceirização em informática

Vários fatores condicionam o sucesso da terceirização em informática. Inclusive alguns são pouco tangíveis. Dizer, por exemplo, que é preciso haver seriedade e maturidade de parte a parte é uma verdade incontestável, mas que tem pouca utilidade prática.

Porém, há quatro fatores objetivos e concretos, que são essenciais para evitar problemas durante este processo: a definição dos níveis de terceirização, a preparação intema, a escolha do parceiro e a redação do contrato de prestação de serviços.

4.1. Níveis de terceirizaçãoA primeira das coisas que precisa ser claramente definida é: até onde a empresa pretende ir com a terceirização? A resposta a esta pergunta normalmente resulta da avaliação das qúatro questões básicas tratadas no item3.2. Por exemplo, a empresa pode decidir que só terceirizará as atividades estritamente operacionais, mantendo completo controle sobre a definição de estratégias tecnológicas e até mesmo sobre a definição de aplicativos. Ou então pode decidir que terceirizará a informática como um todo, eliminando qualquer atividade intema. .

Esta definição do nível desejado para a terceirização, embora pareça corriqueira, é de fundamental importância para que não se perca a objetividade na contratação de serviços. Suponha-se o caso hipotético de uma empresa que decidiu terceirizar todas as atividades de desenvolvimento e manutenção de aplicativos, mantendo internamente o processamento. Neste contexto, não lhe será conveniente contratar diversas empresas pequenas, cada uma fornecendo um aplicativo diferente. Mas se, por outro lado, a decisão fosse de terceirizar somente os sistemas padronizados de exigência legal (aplicações tipo contabilidade, folha de pagamento e ativo fixo), mantendo internamente o desenvolvimento de aplicativos ligados a produção e comercialização, provavelmente não haveria maiores transtornos em comprar a contabilidade de um, a folha de pagamento de outro e o controle patrimonial de um terceiro, porque o problema mais crítico das interfaces estaria sendo administrado pela equipe intema.

Tendo uma visão clara sobre o nível de terceirização desejado, a empresa terá mais facilidade inclusive para administrar a transição, pois saberá com maior precisão qual é o tipo de parceiro que precisará buscar.

4.2. Preparação internaConforme já se mencionou anteriormente no item 2.4, a falta de preparação interna é um dos principais entraves de qualquer processo de terceirização. Por melhor que seja o gerenciamento do processo e por mais competente que seja o parceiro escolhido, sem uma preparação intema adequada não se chega a lugar algum.

Basicamente, há dois tipos de público intemo que devem ser preparados: o pessoal de sistemas e os usuários do serviço.

O pessoal de sistemas deve ser trabalhado em dois sentidos. Primeiro, deve-se eliminar qualquer suspeita de cortes. Se há que se promover algum enxugamento no quadro em decorrência do processo, que isto se faça logo e de uma só vez, deixando claro aos remanescentes que o ajuste está consumado. E segundo, o prestador de serviços deve ser apresentado como um parceiro dos remanescentes, e não como o inimigo que ronda e espreita a cada momento. Se os profissionais de sistemas não se convencerem das boas intenções do prestador de serviços, certamente boicotarão o trabalho deste último, inclusive por acreditarem que, desta forma, estarão fazendo o melhor para sua empresa (que, a seus olhos. está cometendo um enorrne engano que precisa ser consertado).

Já os usuários não estão nem um pouco acostumados a tratar profissionalmente o relacionamento com aquele que lhes presta os serviços internamente e somente mudarão de postura se forem explicitamente orientados neste sentido. Por estarem habituados a se relacionar somente com colegas, tendem a ser tolerantes tanto no que diz respeito a resultados como no que tange a prazos e, adicionalmente, não gostam de se envolver em discussões técnicas. Porém, se o usuário não demonstrar firmeza e o prestador de serviços perceber que pode dar as cartas, a parceria não será saudável. Ademais, não são raros os casos de usuários que, por amizade aos colegas da informática que estão sendo pressionados pela terceirização, acabam boicotando o prestador de serviços, sonegando-lhe informações e comprometendo todo o processo.

4.3. A escolha do parceiroTão importante quanto a preparação intema é a escolha do parceiro. Ela deve ser feita sob a ótica de um relacionamento que objetive ser o mais estável e duradouro possível. Quatro componentes delineiam o quadro do parceiro desejável: a idoneidade, a capacitação técnica, a solidez e perspectivas e, finalmente, as filosofias de trabalho. .

A idoneidade é um componente até certo ponto fácil de se comprovar: basta saber como o prestador de serviços vem se comportando na praça. Para isto, o melhor caminho é pedir a relação de clientes e ex-clientes e ligar para cada um deles, pedindo referências. No caso de empresas pequenas e novas. pode-se tomar referências de seus sócios diretamente junto aos ex-empregadores ou clientes que cada um tenha tido anteriormente. Dificilmente alguém que tenha sido lesado ficará calado, de forma que a simples ausência de informações desabonadoras já é um bom indício da idoneidade.

A capacitação técnica do candidato a parceiro também deve ser checada junto a outros clientes, embora este assunto já seja bem mais subjetivo. Antes de contratar o prestador de serviços, a empresa deve estar atenta para a magnitude dos projetos já desenvolvidos e para os resultados alcançados em cada um deles. Perguntas sobre problemas enfrentados ajudam bastante a compor o quadro. Se possível, devem ser contatados outros clientes onde o prestador de serviços já tenha concluído algum projeto, pois isto dará uma melhor visibilidade inclusive sobra seu comportamento após a entrega do produto final contratado.

A solidez e as perspectivas do parceiro compreendem outro ponto crítico. Como a terceirização é feita com os olhos no futuro de longo prazo, o prestador de serviços em análise deve comprovar não só sua excelência técnica, mas também sua saúde financeira e sua capacidade operacional. Em outras palavras, deve-se certificar que o parceiro terá continuidade no longo prazo e que, além disto, tem fôlego suficiente para levar adiante todos os projetos em que está envolvido.

O quarto ponto são as filosofias de trabalho. Por mais competente que seja o prestador de serviços, ele deve se ajustar a alguns padrões da empresa contratante. Por exemplo, não adianta nada um aplicativo fantástico, mas cujo desenvolvimento se fez sem metodologia e sem documentação. Isto talvez seja aceitável para o prestador de serviços, mas certamente não o é para a contratante.

Convém ainda lembrar que, em determinados casos, pode ser preciso formar o parceiro. Por exemplo, se uma empresa resolve adotar um software que não tem representação no Brasil, pode ser interessante estimular o surgimento de pequenas empresas que se comprometam a dar suporte e manutenção. Às vezes compensa até mesmo interceder junto aos grandes fomecedores intemacionais em favor estes pequenos parceiros, pedindo que seja-lhes concedida uma representação ou uma joint-venture com a empresa estrangeira.

4.4. O contratoNa medida que o contrato é o instrumento formal que sela os compromissos assumidos entre as partes, ele é uma peça fundamental de qualquer processo de terceirização. Quando se trata da informática, onde o caso é mais complexo do que nas outras situações em geral, o contrato assume um papel ainda mais relevante.

Deve-se porém ressaltar que, nem de longe, o contrato pode ser considerado como a peça-chave na terceirização em informática. Pelo contrário, o que vale mesmo em primeiro lugar são dois dos três fatores críticos já mencionados: a preparação intema e a escolha do parceiro. Geralmente, a intenção expressa nos acordos informais ocorridos durante o processo de negociação costuma ser mais importante do que o contrato: se logo depois de assinado o documento percebe-se que alguma cláusula não corresponde aos acordos verbais negociados entre as partes, é comum que o contrato seja refeito ou passe a ter um adendo.

No entanto, a preocupação com o contrato jamais deve ser menosprezada sob qualquer pretexto. Principalmente com o passar dos anos, quando a memória dos envolvidos na negociação já não estiver mais tão vivida, o contrato passará a ser o único referencial concreto para esclarecer quais eram as bases reais do acordo originalmente firmado. Além disto, um bom contrato ainda é a forma mais segura de evitar enormes dores de cabeça posteriores. Multas por cláusulas não cumpridas, cessão e transferência de direitos e deveres, formas de reajuste, bases para renovação e condições para rescisão são alguns dos muitos aspectos facilmente administráveis quando explicitados em contrato.

mas que se tomam absolutamente caóticos se não forem previstos no documento.

Não vale a pena discorrer, aqui, sobre como deve ser ou deixar de ser um contrato de terceirização em informática. Cada caso é um caso e um bom advogado certamente é o caminho mais curto para se redigir um contrato que atenda bem ao interesse de ambas as partes. Qualquer contrato deve prever, no mínimo, cláusulas elementares como:

A relação acima pode ser estendida com diversos outros tópicos, tais como a confidencialidade, as questões trabalhistas, as condições para repasse ou cessão de direitos e deveres, etc. Porém, no caso da informática, além das cláusulas tradicionais, o contrato deve prever algo mais sobre o serviço em si.

Fica dificil dizer o que se aplica irrestritamente a qualquer contrato de terceirização em informática, pois o espectro de possibilidades é bastante amplo. Entretanto, alguns tópicos devem receber uma atenção redobrada entre eles:

Mas para serviços puramente intelectuais, a tendência é cair na falta de objetividade. Por exemplo, especificar o que é um sistema gerencial de qualidade não é uma tarefa para leigos. Cada empresa valoriza mais algumas coisas em detrimento de outras. No entanto, alguns aspectos podem ser citados, como por exemplo:

Quando se contrata qualquer serviço de terceiros, estes últimos devem propor planos de contingência, isto é, saídas emergenciais para evitar que problemas técnicos causem impactos de conseqüências desastrosas. Por exemplo, se uma empresa fomece serviços de processamento, ela deve estar preparada para utilizar temporariamente recursos pertencentes a uma outra empresa em caso de pane no seu próprio sistema. Cabe ao fornecedor do serviço a responsabilidade por definir, testar e implementar tal plano. Se possível, o contrato deve explicitá-lo e até mesmo estabelecer as situações em que ele deve ser acionado. Em outras palavras: a empresa contratante deve especificar qual a sua tolerância máxima para falhas dessa natureza;

Ressalte-se que o contrato de terceirização em informática tem nitidamente dois componentes. Há o elemento jurídico, sempre presente em qualquer documento dessa natureza; e há o componente técnico, inerente às atividades relacionadas à informática. Por esta peculiaridade, o recomendável é que cada empresa procure definir um contrato-base para terceirização em informática.

Tal contrato-base deve ser um esqueleto mais ou menos genérico, que possa ser ajustado aos diversos serviços que venham a ser contratados.

Mas o mais importante mesmo é que o trabalho de definir o contrato não seja delegado a um advogado, nem deixado nas mãos do responsável pela informática, uma vez que nenhum deles reúne, individualmente, toda qualificação necessária para levar adiante esta complexa tarefa. O ideal é que os dois profissionais atuem em parceria, somando conhecimentos e esforços para que tanto os aspectos jurídicos como os técnicos sejam devidamente considerados no instrumento que regulará a convivência da empresa com o prestador de serviços.

5. A administração do processoUma vez decidida e implementada a terceirização, cabe agora uma nova preocupação: a administração do processo, na qual se destacam três aspectos:

o monitoramento, as renegociações e a auditoria.

5.1. MonitoramentoO monitoramento consiste em acompanhar, permanentemente, os ambientes intemo e extemo.

Do lado interno, a empresa deve preocupar-se em evitar duas, coisas:

Quanto ao ambiente externo, a empresa deve estar atenta a:

Mas, na medida que a empresa esteja bem informada, aumenta seu poder de barganha para exigir do parceiro atual desempenho e preços compatíveis com a evolução do mercado.

Outro ponto para o qual a empresa deve estar atenta combina as observações interna e externa, reavaliando sempre se compensa manter a terceirização ou se é melhor trazer a atividade de volta para a empresa. Muitas vezes o motivo que levou à terceirização já não mais existe. Por exemplo, a empresa pode ter terceirizado sua informática como um todo por causa da falta de escala para manter um mainframe, mas o advento das máquinas RISC pode desequilibrar a antiga vantagem da terceirização.

5.2. Renegociações

Visto que a terceirização pressupõe uma parceria justa e benéfica para os dois lados, é preciso que ambas as partes tenham em mente a necessidade de rediscutir periodicamente alguns aspectos referentes ao acordo inicial. Pelo menos em princípio, tudo está sujeito à rediscussão. Mas dois aspectos em particular merecem uma especial atenção:

5.3. AuditoriaAo terceirizar em informática, a empresa está passando uma parte de si própria para um elemento extemo. Nada mais natural, portanto, do que manter algum controle sobre a forma de atuação do parceiro.

Embora não imprescindível, é bastante desejável que o prestador de serviços tenha sua própria auditoria intema. Se isto ocorrer, a auditoria da contratante terá muito mais facilidade em desempenhar seu papel, inclusive pela possibilidade de atuação conjunta na maior parte do tempo.

Porém, geralmente o parceiro não tem auditoria intema e, neste caso, cabe à empresa contratante toda responsabilidade pelo processo de auditoria.

O elenco de aspectos a serem auditados varia muito conforme a atividade que está sendo terceirizada. Entretanto, alguns tópicos devem ser observados:

5.4. Deu errado ... e agora ?

Ainda que a empresa tome todos os cuidados possíveis antes e durante a terceirização, ela deve estar preparada para um eventual fracasso nas relações com o parceiro.

Às vezes o problema aparece porque havia uma expectativa que não era condizente com a realidade: a empresa esperava conseguir vantagens que, na prática, não são exeqüíveis. Outras vezes percebe-se que o parceiro não era exatamente o que parecia ser. E, finalmente, pode ainda acontecer de o contexto mudar, fazendo com que o que era bom e interessante passe a ser mim e inoportuno.

Geralmente os problemas vêm à tona através do monitoramento e da auditoria, já tratados anteriormente. Quando o problema surge e se mostra sem perspectivas de solução, antes de tomar qualquer decisão a empresa deve inicialmente avaliar se vale a pena romper o contrato e, caso positivo, qual o próximo passo.

A avaliação da ruptura deve levar em conta os seguintes fatores:

Se após a análise destes três pontos a empresa considerar que vale a pena levar em frente o rompimento, ela ainda deve fazer uma nova avaliação, agora em termos de terceirizar novamente ou retomar a atividade.

Caso decida manter a atividade terceirizada, a seleção do novo parceiro e a administração da transição serão os pontos mais críticos.

Se, por outro lado, a empresa decidir retomar a atividade, ela ainda tem dois caminhos a seguir: pode fazê-lo de imediato ou contratar temporariamente um parceiro, por um prazo suficiente para que consiga se recompor e formar uma nova equipe interna habilitada a assumir o controle.

6. Comentários Finais

Pode parecer brincadeira, mas a terceirização em informática se assemelha muito a um casamento. E, note-se bem, casamento à moda antiga, de papel passado.

A decisão sobre entrar ou não nesta nova situação é complexa e envolve pesadas responsabibdades. Portanto, jamais deveria ser tomada por conta de um impulso de curto prazo. Na medida do possível, deve-se perseguir uma relação que dure para todo o sempre.

Uma vez que se decida a união, a convivência com o parceiro certamente demandará algumas doses diárias de paciência e tolerância, combinadas com estímulos e encorajamentos de parte a parte. O relacionamento precisa ser revisto sempre que ocorrem problemas e a superação das dificuldades dependerá inclusive da sinceridade e da transparência de ambas as partes, que devem sempre jogar limpo e deixar claro, logo no início, quando alguma coisa começa a sair de uma forma que não lhe agrade.

A ruptura será sempre traumática: assim como num divórcio, mesmo que tudo corra bem, ainda assim é ruim. Vai custar caro, vai dar briga e vai deixar marcas.

E, depois da ruptura, ainda restam sempre as possibilidades de procurar outro parceiro ou voltar ser o dono de seu próprio cantinho. .

Mas assim como o casamento pode ser algo muito bom e duradouro, a terceirização também poderá trazer bons resultados finais para ambos os lados. Mas isto não será conseguido automaticamente e, se deixada à própria sorte, os resultados da terceirização tendem a ser tão ruins como o casamento pelo qual nada se faz depois de assinado o papel.

Porém, se cada lado entrar no processo consciente das limitações, dos riscos e das dificuldades, provavelmente os parceiros acabarão encontrando o caminho para uma convivência harmoniosa, benéfica e gratificante para ambos.